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09
2011
A produção de energia hidroeléctrica em Portugal comemorou recentemente o centenário. A primeira central nasceu nas faldas da Serra da Estrela e por lá continua, discreta.
Na época, levantar uma grande barragem era impensável, principalmente devido ao custo e demora na construção. As barragens modernas armazenam grandes quantidades de água para produzir energia, trocando altura (energia potencial) por grandes caudais – indicadas para rios grandes. Quando o caudal não está disponível, usam-se turbinas de alta pressão ou de fio de água, que só funcionam com quedas maiores. As centrais da Serra da Estrela são deste último tipo, até porque a quantidade disponível de água não era muita – são indicadas para cursos de água regulares mas modestos.
Central da Ponte de Jugais
A central hidroeléctrica da Ponte de Jugais é alimentada através de duas condutas que recebem água 230 metros mais acima. A enorme pressão permitiu que, em 1923, já se conseguisse gerar 3 MW de potência.
4
09
2011
Nos últimos três anos, apesar de ter conseguido evitar escrever sobre não conseguir escrever, confessei várias vezes ter deixado muitos artigos morrer como rascunhos que escrevo e acabo por apagar por terem perdido o momento. Há outros que nunca chego a apagar – ainda não decidi se afortunadamente ou não – porque tenho a certeza de que os hei-de terminei dê lá por onde der. Bom, no mínimo, quase a certeza. Talvez.
Os menos afortunados de todos são aqueles que nem chegam à categoria de rascunho. Não passam de uma tímida ideia que vai surgindo amiúde com um aspecto mal acabado e despenteado.
A história deste artigo começa com uma destas ideias de artigo sem alinhavo. Surgiu pela primeira vez na viagem entre o Huambo e Luanda, algures perto de um dos muitos encontros com o Keve, que serpenteia em torno da estrada, quando reparei num singelo sinal de trânsito cheio de semelhanças com os que se costumavam ver nas estradas do interior de Portugal. Este sinal ostentava uma diferença que só consigo atribuir à genialidade de quem o adaptou à realidade angolana.
Quando estava a tirar a carta de condução, ainda no século passado, o intrutor de código, em jeito de brincadeira, apresentou o sinal de perigo A19a (animais sem condutor) como sendo o pré-aviso de brigada de trânsito. Posso afirmar com segurança que este instrutor não tinha muita consideração pela polícia rodoviária. O certo é que nenhum dos seus alunos esqueceu esta apresentação do malfadado sinal e ainda hoje o associam a polícias na estrada.
Gado na estrada
A versão portuguesa do sinal tem uma vaquinha preta dentro de um triângulo vermelho. Este era o gado mais comum e perigoso para os condutores nas aldeias do interior.
Gado na estrada, versão angolana
Em Angola, as vacas não costumam aparecer perto das estradas. A maioria do gado fica nas grandes fazendas ou é criado pelos pastores tradicionais longe dos centros urbanos, usando antigas rotas de transumância inacessíveis a automóveis. As cabras, por outro lado, são omnipresentes. Quando nos aproximamos dos kimbos mais remotos, ainda antes de ser ver gente, já avistámos duas ou três cabras a pastar nas bermas ou a fugir esbaforidas à frente do carro. Ainda por cima, o raio dos bichos tem o mau hábito de esperar pacientemente que o carro se aproxime para dar uma corrida para o outro lado da estrada. Aqui não se pastoreiam as cabras, elas pastam e circulam por onde lhes apetece. O sinal de gado na estrada angolano ostenta, por isso, uma cabra em vez de uma vaca.
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09
2011
Linhares da Beira está classificada como Aldeia Histórica. Teve a felicidade de quase ser abandonada e poucas casas novas construídas no seu centro. Está mais ou menos como era no princípio do séc. XX. É conhecida, sobretudo, pelos amantes do parapente, que podem sempre contar com boas correntes ascendentes vindas do vale do Mondego e um ponto alto para lançarem a asa.
Vista da porta da torre
Para os turistas apeados, a sensação mais próxima do que deve ser avistar o vale do ar é visitar o castelo e manter os olhos no horizonte quando se cruza a porta da torre de menagem para o reduto ocidental.
2
09
2011
Qualquer igreja com mais do que alguns séculos de história em razoável estado de conservação e que não tenha sofrido obras de mau gosto, tem o seu chão repleto de inscrições. Durante muitos séculos os funerais realizavam-se dentro das próprias igrejas, mas só de quem tinha posses para isso, obviamente.

Os nomes inscritos há que foram esquecidos. Poucos podem afirmar que as ossadas de um seu antepassado ali estão, porque a memória dos vivos perde-se com as gerações. Só os nomes não despertam memórias que não existem.
Mas as datas, essas sim, dizem-nos muito. Dizem-nos que houve anos de maior mortandade, dizem-nos que aquelas paredes já existiam nessa data e dizem-nos, sobretudo, que houve gente com sonhos próprios que viveu e morre por ali. Mesmo que os nomes nada nos digam, podemos inventar-lhes uma cara e pensar como seria a sua vida naquela época.
1
09
2011
As hortas que foram nascendo em volta das grandes cidades são agora, cada vez mais, tema de notícia. A crise e a necessidade de poupar dinheiro levou os jornalistas a prestar atenção aquilo que muitos achavam a coisa mais natural do mundo.
Grande parte das hortas nasceu das mãos de quem emigrou para as cidades mas não era capaz de dispensar uns miminhos cultivados com carinho. da geração dos meus pais havia muito trabalhadores que chegavam a casa, calçavam umas galochas, agarravam num balde e numa enxada, e partiam para a horta instalada algures num terreno desocupado próximo. Havia alguns que levavam a horta tão a sério que sempre julguei serem agricultores a tempo inteiro.
Em certas profissões, como os condutores e cobradores da Carris no tempo em que os autocarros levavam ambos, parecia ser obrigatório ter uma horta. Talvez fosse esse o tema de conversa entre eles nas horas mais mortas. Todos os reformados da Carris que conheci, daqueles que usavam bigode e uma pasta pendurada ao ombro, passavam mais tempo na horta que em casa.
Infelizmente, grande parte das hortas suburbanas rapidamente acaba por se tornar um grande amontoado de lixo, com estores velhos e bocados de frigoríficos avariados a fazer as vezes de vedação e tambores ferrugentos para armazenar água. As hortas são bonitas, mas o que as cerca mete dó.
Lavoura mecânica nas hortas suburbanas
Como em tudo, em cada actividade há pessoas mais ou menos dedicadas. Nas hortas há quem passe dias a revolver o talhão das cebolas de sacho e enxada ou que faça a monda com uma tesoura das unhas e depois há os profissionais das hortas de fim-de-semana, que investem em tratores e arados para os seus trinta metros quadrados de batatal.