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31  08 2011

Santa Clara-a-Velha

O Mosteiro de Santa Clara no já longínquo séc. XIII. As freiras sustentavam-se com os dotes das noviças e doações, por estarem impedidas de vender produtos agrícolas como os frades do mosteiro de Santa Cruz próximo. Estes últimos não gostaram da nova vizinhança, que competia com eles pelas fontes de rendimento fácil, e, com a morte da sua fundadora, D. Mor Dias, parecia que a história ficaria por aqui. Acontece que a Rainha Santa se interessou pelas freiras Clarissas de Coimbra e patrocinou pessoalmente a construção de um novo mosteiro. Foi para este mesmo mosteiro que se recolheu após a morte de D. Dinis.

Ao que o mosteiro não resistiu, foi às cheias regulares do Mondego. Lentamente, o leito do rio foi subindo e o mosteiro parecia afundar-se. Após muitas décadas de desaterros constantes e de obras para mudar parte das instalações para níveis superiores, numa tentativa fútil de fugir às cheias seguintes, os claustros e o piso térreo da nave da igreja foram abandonados.

Santa Clara-a-Velha
Convento de Santa Clara-a-Velha

Todo o mosteiro foi abandonado definitivamente no séc. XVII, quando se construíu, numa colina sobranceira, o novo Mosteiro de Santa Clara. Nesta altura, para os distinguir, a ruína à beira do Mondego passou a ser o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

Nos últimos anos, um projecto arqueológico de grande envergadura drenou e escavou as ruínas inundadas do mosteiro e pôs a descoberto um monumento medieval muito bem preservado. Até os delicados baixos-relevos em pedra de Ançã parecem ter sido esculpidos ontem.


30  08 2011

Casa da Torre

Nas faldas do maciço central da Serra da Estrela nasceram várias vilas e cidades importantes que se orgulham de uma História longa, confirmada por ruínas e antigos forais, e de paisagens vigorosas que moldam gentes e feitios. Gouveia é uma delas e vale a pena ser visitada por muitas razões.

Casa da Torre
Casa da Torre e pelourinho

Mesmo no centro da cidade resiste um pequeno edifício que, em tempos anteriores, fez parte de um solar pertencente aos Marqueses de Gouveia. Infelizmente, eram da família dos Távoras e o Marquês de Pombal tratou-lhes da saúde. Grande parte das suas propriedades foi destruída e os solares mais pequenos deixados ao abandono para serem ocupados ou ruírem por si e as suas paredes recicladas para outras construções.

A Casa da Torre data do séc. XVI e tem uma interessante janela manuelina que dá para a Rua Direita. Do outro lado está o pelourinho, também da mesma época, mas entretanto destruído. Em 1951, depois de encontradas várias peças do pelourinho original, foi reconstruído.


29  08 2011

Letreiros

Ainda não descobri o motivo, mas gosto de anacronismos, de ler jornais velhos como se fossem os da véspera e de ver antiguidades a uso. Talvez seja por isso que as marcas do passado mais ou menos longínquo com que me vou cruzando me fascinem.

Tenho especial interesse pelas coisas que prestam testemunho a vidas e sonhos. Mais do que paredes de casa ou monumentos, os resquícios de negócios desaparecidos ou degraus gastos fascinam-me. Gosto de imaginar as pessoas por trás deles ou às vezes nem isso, e contento-me em saber que houve alguém para quem aquele lugar foi importante.

Os letreiros costumam resistar mais que os próprios negócios. Alguns desaparecem apenas com a demolição do edifício, especialmente se a zona comercial das cidades já se tiver mudado para outros bairros.

Salão moderno
Salão moderno, desenho antigo

Nas zonas mais antigas das cidades há muitas lojas cujos tempos áureos foram há algumas décadas. Poucos são os comerciantes ainda vivos ou em actividade, mas os velhos letreiros instalados no auge da loja vão resistindo, um pouco desbotados. Ostentam o desenho típico da época, com cores e tipos de letra que já não se usam.


28  08 2011

Comércio tradicional

Visitar as zonas comerciais das partes novas das cidades é um desconsolo. São sempre os mesmos letreiros, as mesmas marcas e os mesmos empregados com ar enfastiado a atender. A identidade desapareceu.

Por isso, de vez em quando é salutar visitar as ruas da tradição. Nos velhos centros das cidades que agora são meros esqueletos de casas vazias sem gente ainda resistem algumas lojas únicas. É preciso aproveitar para lavar os olhos enquanto podemos. Muitas não vão resistir a mais esta crise.

A Pérola do Bolhão
A Pérola do Bolhão, no Porto

Em volta do mercado do Bolhão há algumas das casas representativas da velha burguesia comercial portuense, das que tinham um balcão alto e o empregado se casava com a filha do patrão.


27  08 2011

Para confundir os turistas

A dada altura, para evitar embaraçosas cabeçadas em portas que abrem para direcções inesperadas ou podem ser abertas por gente descuidada que não se inibe de nos dar com uma porta em cheio e nem sequer pedir desculpa, convencionou-se que um letreiro de cada lado seria a solução. Desde que as pessoas saibam ler e prestem o mínimo de atenção ao que fazem, estes letreiro funcionam.

As portas de espaços públicos passaram a estar ornamentadas com PUXE e EMPURRE nas línguas de cada país. Os viajantes já o sabem e, mesmo que não conheçam a língua, depressa aprendem o que cada texto quer dizer. Na Alemanha um ZIEHEN ou um DRÜCKEN só nos confundem uma vez, mas quem está distraído talvez faça as ocasionais figuras tristes em França quando tenta puxar uma porta que diz POUSSEZ.

Os turistas estrangeiros que visitam Portugal também se habituam depressa aos letreiros em português nas portas que indicam se são de puxar ou de empurrar. Ainda por cima estão com sorte, porque nesta terra onde se gosta de assassinar a língua, há muitos que insistem em acrescentar uma tradução para inglês.

Mas há um pequeno cantinho neste Portugal que se recusa vender a este internacionalismo, qual irredutível aldeia gaulesa notabilizada pela banda desenhada. Os estrangeiros não têm a vida facilitada quando chegam ao Porto. Muitos monumentos não têm os habituais letreiros nas portas ou, quando os têm, precisam de mais discernimento do que decorar o PUXE e EMPURRE.

Basta ir à Igreja da Lapa, onde está guardado o coração de D. Pedro IV, oferecido pelo próprio – ainda em vida obviamente – para depararmos com uma armadilha para turistas. O letreiro adverte apenas que a porta abre para fora.

Puxe
Esta não vem nos guias

O turista pode querer visitar, mas vai ter de puxar pelo cérebro para perceber como se abre a porta.


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