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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

05 2012

Avenida António Enes

Queluz cresceu à sombra do Palácio. Durante duzentos anos foi este o centro em torno do qual orbitava a vida da povoação. Sem ele, Queluz seria apenas o lugar do cruzamento da estrada de Sintra com a de Algés a Belas, no que ainda hoje é conhecido como «Os Quatro Caminhos», o largo materializado pelas avenidas Elias Garcia, da República, D. Pedro IV e António Enes.

Com a chegada do comboio e o fim da Monarquia, o centro do lugar tornou a ser o cruzamento. O centro da povoação afastou-se do Palácio. O comércio e as pequenas vilas onde se vinha passar férias cresceram entre os quatro caminhos e a linha de caminho-de-ferro, no troço da estrada de Belas a que se deu o nome de António Enes, em homenagem ao importante escritor, deputado e Comissário Régio em Moçambique que morreu em Queluz em 1901.

Conheci a Avenida António Enes ainda com poucos prédios e muitas ruínas das antigas vilas. Na altura, era ladeada de grandes plátanos, cujas copas se tocavam e fechavam a rua num túnel verde, o que a tornava muito apetecível nos dias de Verão. A iluminação pública consistia numa série de candeeiros pendurados em cabos que atravessavam as copas, por ser impossível usar postes normais. É uma memória de infância vívida.

Avenida António Enes
As árvores cortadas

Entretanto, a cada vila que era demolida para dar lugar a mais um prédio de vários andares encostado ao do lado, várias árvores eram abatidas, muitas com o pretexto de que era a única forma de movimentar as máquinas e outras apenas porque se aproveitavam as estremas do lote para erguer as paredes em vez de usar a área de implantação da casa demolida. A avenida foi perdendo as árvores aos poucos, até restarem apenas uns exemplares miseráveis e maltratados. O túnel verde tornou-se um deserto estéril de tinta plástica e marquises de alumínio. Ficou horrorosa.

Avenida António Enes
Árvores novas substituem as velhas

Recentemente descobri que as últimas destas resistentes foram também cortadas. Subi a avenida e contei dois ou três cepos com os anéis ainda bem visíveis. Os últimos testemunhos do que tinha sido a avenida desapareciam. Felizmente que o fizeram por outros motivos que não o corte cego. Pouco mais à frente, novas árvores ocupavam o lugar das que tinham sido abatidas há décadas e alguns caldeiros abertos no passeio de novo ostentavam também o seu rebento. Volta a haver árvores estimadas na António Enes. Talvez regressem os candeeiros pendurados num fio e as tardes de Verão fresquinhas. Talvez.

Avenida António Enes
Esperemos que não as deixem secar

Neste momento sobra apenas uma árvore adulta, das muitas dezenas que bordejavam a rua. Era a mais pequena das seis que ficavam junto ao armazém da estação de comboio. Quando construiram a nova estação, o pior, menos funcional e mais feio mamarracho do mundo, as árvores quase centenárias estavam contempladas no projecto arquitectónico. Ficariam a esconder o edifício e disfarçavam a pequenez do largo, mas o argumento de que as máquinas não passavam foi mais forte e abateram cinco árvores colossais. Curiosamente, as máquinas raramente por ali andaram. Os desaterros e fundações especiais foram todos feitos mais a oeste.


05 2012

Malaposta

Acerca dos marcos quilométricos que duram mais que a própria estrada e que hoje servem para perdurar nomes e história, já escrevi anteriormente. Na altura usei como exemplo o marco da IV Légua da Estrada Real de Lisboa a Coimbra, mandada abrir por D. Maria I, para o serviço de malaposta.

Esse marco resistiu no seu lugar até 1985, altura em que foi destruído num acidente automóvel. Depois de reconstruído foi colocado uns metros ao lado, longe da estrada que quase o fez desaparecer.

Marco de Carregado
Marco do Carregado

Alguns quilómetros mais a norte, à saída da povoação do Carregado, está outro marco desta estrada. Tem uma forma curiosa, com uma secção em forma de losango. Ficava no entroncamento da estrada para as Caldas da Rainha com a Estrada Real. Devido às obras que as estradas vão sofrendo, também este está um pouco deslocado. A construção da auto-estrada obrigou a enfiar a Estrada Real numa funda vala. O marco mantém-se na cota original, agora fora de contexto.

Marco de Carregado
Marco do Carregado

Por se tratar de um monumento de pouca importância turística, a sua zona de protecção resume-se a um rectângulo com meia dúzia de metros quadrados. É impossível fazer uma fotografia que não apanhe a auto-estrada ou o lote da estação de recepção de satélite.

Um pormenor muito curioso é que o canteiro aparenta ter gravado no marco uma inscrição com o sotaque lisboeta: «derige» em vez de «dirige». 


29  04 2012

Estendal de pombos

Não nutro especial simpatia por pombos, mas é um facto que estão por todo o lado e é difícil não reparar neles. Por outro lado, também não lhes tenho qualquer antipatia digna de nota, principalmente porque os cá da zona costumam pastar pacificamente no jardim, em vez de se andarem a banquetear com lixo. As pombas pastam e os pombos arrastam a asa e andam inchados de um lado para o outro, convencidos de que são pavões. Um dos nossos vizinhos é columbófilo e todas as tardes faz os bichos dar uma voltinha enquanto assobia. Talvez por isso os pombos que vemos tenham um aspecto saudável.

A ordem natural das coisas diz que o relvado é deles até que os patos do rio resolvam para lá ir. Nessa altura os patos dormitam ao Sol e os pombos ficam com um ar desconsolado nos ramos das árvores mais próximas. Nestes dias em que o relvado fica entregue aos patos sob ameaça de uma bicada valente, alguns pombos aproveitam os gradeamentos das varandas para passar o tempo. Numa casa em especial, o último andar quase parece uma exposição columbófila.

Estendal de pombos
Pombos no estendal

Mas assim que os patos voltam ao rio, é um ver se te avias, para chegar ao relvado.


26  04 2012

Art Déco em fim de vida

O material que prometia o futuro no final do séc. XIX foi o betão. A alvenaria de pedra, apesar de continuar a ser usada normalmente até meados do século seguinte, entrou na categoria de método arcaico e de qualidade duvidosa. O betão anunciava estruturas diferentes, edifícios de paredes mais finas e geometrias impossíveis. Algo que os romanos souberam fazer quando construiram o Panteão de Roma. O betão era a alta tecnologia da época, mas, infelizmente, com a queda de ambos os impérios romanos, o saber perdeu-se. No entanto, os pedreiros continuaram a fazer o que sempre fizeram, assentar pedra sobre pedra, a erguer paredes que se sustentavam por gravidade e um pouco de argamassa séculos a fio.

O cimento moderno, que permite fazer betão, surgiu no princípio do séc. XIX, mas a nova tecnologia não se expandiu depressa. O betão permitia prescindir de quem sabia usar a pedra e lhe conhecia as fraquezas, o que não lhe granjeou muitos apoiantes do lado dos pedreiros. Foi só depois a Grande Guerra de 1914 que ganhou mais adeptos. A principal motivação foi a falta de mão-de-obra. Quase todos os pedreiros em idade de combater foram recrutados para a guerra e muitos deles não regressaram. O betão perdeu muitos inimigos e uma nova geração de pedreiros precisava dele para continuar a trabalhar com pessoal menos especializado.

Nesta altura começou-se também a explorar as potencialidades do novo material. Grandes vãos e elementos lineares de tamanhos considerados impossíveis passaram a ser fáceis de executar. As linhas naturalistas e sinuosas da Arte Nova deram lugar às longas linhas e motivos geométricos da Art Déco que, por sua vez, durou até à grande guerra seguinte.

Art Déco
Art Déco, Sintra

A maioria dos grandes edifícios desta época, teatros, edifícios públicos e hotéis, completam quase um século. Estão em fim de vida porque o betão, que prometia durar para sempre, também tem as suas falhas. Apesar de parecer resistente como a pedra, por vezes apodrece como a madeira se não foi cuidado. Um pouco por todo o país vemos os velhos teatros fechados. Alguns são exemplos notáveis de Art Déco, mas estão entaipados, servindo de abrigo a pombos e com os telhados a deixar entrar mais água do que Sol. Temos pouco tempo para os poder apreciar.

 


17  04 2012

À MAC eu devo muito!

Acho uma ofensa a todos os cidadãos o fecho da MAC. Quando temos uma casa feita que funciona bem e presta os melhores cuidados médicos em obstetrícia, cuidados neonatais e até em diagnóstico pré-natal, desfazê-la apenas por interesses económicos/políticos é criminoso.

Eu e a minha irmã gémea nascemos na MAC há 34 anos. Na altura podia-se decidir onde se dava à luz e a minha mãe tomou essa opção ainda sem saber que estava à espera de gémeos, nem que naquele estabelecimento tinha reunidos os melhores especialistas (já naquela altura). Mesmo a médica que seguiu a gravidez da minha mãe e que não trabalhava na MAC disse-lhe que ali ia ser bem atendida porque ali havia bons especialistas. A minha mãe não teve razões de queixa e tudo correu bem. Claro que desses dias não tenho lembrança, mas confesso que sempre que passo à porta da MAC há um sentimento difícil de descrever ao pensar que foi ali que tudo começou para mim… é, sem dúvida, um sítio de referência.

No final do ano passado fiquei grávida, que notícia maravilhosa, íamos ser pais no final de Maio de 2012. O que sempre desejei ia agora concretizar-se… Tudo corria bem, até que na ecografia morfológica feita no final de Janeiro deste ano foi detectado um problema muito grave no coração do bebé.

Por se tratar de um caso muito grave foi encaminhado para a MAC (local onde não pertenço, nem a médica que me seguia). Infelizmente, o pior cenário foi confirmado ao fim de vários exames e opiniões de vários médicos da MAC (no diagnóstico pré-natal) a minha gravidez tinha de ser interrompida e tudo foi tratado na MAC (desde o diagnóstico, internamento e parto).

Desde o início de todo este processo, fui seguida por muitos bons profissionais de enfermeiros, a médicos e até auxiliares. Posso dizer que me senti tratada como filha e até irmã, fui ali tratada por gente com coração e muito profissional. Depois de tudo o que passei e apesar de ter sido uma situação complicada e difícil senti-me privilegiada por ter sido encaminhada para a MAC devido ao atendimento e à atenção e cuidados de todos.… À MAC eu devo muito!

Custa-me e corta-me o coração saber que querem fechá-la colocando em primeiro lugar os interesses económicos por oposição aos interesses das pessoas. Pensar nas pessoas (empregados e outros benfeitores) que ajudaram a construir aquela casa com donativos – em todo o edifício existem placas de bronze com nomes das pessoas que deram dinheiro – alguns talvez com algum sacrifício, suor e lágrimas que lutaram para que a MAC fosse realidade e hoje rapidamente se decida fechá-la esquecendo tudo o que a MAC tem feito em prol da diminuição da taxa de mortalidade em Portugal, o trabalho desenvolvido nos cuidados neonatais, na gravidez de alto risco, no diagnostico pré- natal, um local onde grande parte da população lisboeta nasceu, nasce e que gostaríamos que continuasse a nascer.

Assine quem puder a petição e se puderem associassem-se às manifestações do pessoal da MAC, temos uma palavra a dizer ao não encerramento da MAC.


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