A cidade da Ironia
Afonso Loureiro
Luanda é a cidade mais irónica que conheço. A cada esquina que dobramos somos confrontados com atitudes e situações cuja compreensão só atingimos se as encararmos com um piscar de olho.
A marginal que tanto ama está a ser esventrada e revolvida para se parecer com a marginal de outra cidade qualquer, no entanto, ninguém sabe quando ou se as obras terminarão. Até lá, o ex-libris da capital continuará com os coqueiros a morrer e o lixo a acumular-se na praia.
Luanda projecta novos centros comerciais para o centro e, em vez de assumir que a EDEL lhes deve fornecer energia em qualidade e quantidade suficientes, prepara-se para adquirir grupos geradores capazes de abastecer o empreendimento e o bairro à volta. O falhanço é um dado a priori, o que não deixa de ser irónico para estes projectos ambiciosos.
Os esgotos entupidos levam a que se façam derivações em torno das obstruções mais obstinadas ou, em último recurso, que se abram fossas nas caves ou nos quintais. Quando estão cheias, chamam-se carros para as limpar, aspirando as lamas pestilentas para as cisternas. Ao fim do dia, estes mesmos camiões aproveitam uma sarjeta insuspeita para despejar o que foram limpar, entupido os esgotos noutra parte da cidade com as lamas que depressa fazem uma argamassa impermeável.
O ideal para os buracos
Numa cidade onde as ruas esburacadas ou em terra batida são mais frequentes que as asfaltadas, seria improvável que o sonho dos condutores fosse circular com pneus de baixo perfil e jantes cromadas. Aparentemente, carros com cinco litros de cilindrada, mesmo que todo-o-terreno, só são aceites com rodas assim.
Não deixa de ser interessante pensar que, apesar de ser quatro vezes mais barata, gasta-se o mesmo em gasolina que em Portugal, porque os consumos nos engarrafamentos permanentes são astronómicos.
Mas, a maior ironia vem dos vendedores de meias ou sapatos que ganham a vida acenando a mercadoria por entre as filas de carros, descalços…
É o falhanço do governo do MPLA. É triste constatar mas os portugueses governaram bem melhor Luanda.
Ah! Já sei, foi à custa da opressão dos negros!
E agora quem são os oprimidos?
Parcece-me que o cada vez mais na mesma está ainda pior.
Como é mesmo a teoria angolana da resolução de problemas? Cada um resolve seu pedaço e o resto que se dane, não é isso? Quem precisa da Edel se é possível e mais fácil ter um gerador particular? O dinheiro destinado à infraestrura será melhor aproveitado se for gasto na aquisição de uma Vila em Caiscais.
E quem há de reclamar?
Dizia LUCIO LARA, há trinta e tal anos:
“Agora, vamos fazer uma Angola à nossa maneira”.
Não creio que se referisse que seria à maneira dos velhos e inúmeros sobas, nem respeitando o mínimo do que de bom havia nas tradições, e nas velhas leis “dos usos e costumes”.
Seria uma Angola à maneira de quem?
Dizem que antigamente o colono era branco e que agora apenas mudou de cor…
Mesmo assim, noto melhorias no abastecimento de água e luz desde que cheguei a Luanda.