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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

10  10 2011

MFA, Povo. Povo, MFA.

É verdade que os graffiti vulgares são feios. Por alguma razão os próprios executantes chamam vomitado (throw-up) às suas mais frequentes "obras". Por outro lado, é inegável que há excelentes artistas ligados ao graffiti, com peças autorizadas a decorar paredes um pouco por todo o lado.

Os graffiti são a evolução da nobre arte de gatafunhar nas paredes, tradição que remonta, pelo menos, à época Romana, conforme atesta uma parede em Pompeia repleta de escritos cheios de actualidade como «Fulano é corno» e «Abaixo Sicrano».

Logo a seguir ao 25 de Abril, uma verdadeira febre de brocha e lata de tinta em riste assolou Portugal. Os tempos conturbados e a crise ditavam chavões e murais carregados de ideologia de todas as cores políticas. Muitos desses murais desapareceram com o tempo ou com a demolição das paredes que lhes serviam de telas. A grande maioria, como acontece com quase todos os escritos muito contextualizados, perdeu o significado. Até mesmo o famoso «Reagan go home» é capaz de não dizer nada a muita gente.

Mas são exactamente estes escritos carregados de mensagens políticas que demonstram a evolução das coisas e a passagem do tempo. Cá por Queluz houve alguém muito atarefado que dispunha de uma lata de tinta verde à prova de tudo. Passados mais de trinta anos ainda se consegue ler «Soares Carneiro Ladrão», «AD = Fome», «Otelo a presidente» e «Greve Geral» um pouco por toda a parte velha da cidade.

Soldado do MFA
Soldadinho do MFA

O meu gatafunho preferido desta época é o discreto soldadinho do MFA que continua a fumar o seu cigarro sossegado da vida, pintado com a imputrescível tinta verde da praxe.


10 2011

Sopa dos pobres, passe dos pobres

No final dos últimos meses têm-se assistido a um deprimente espectáculo nos postos de venda de passes sociais – as filas do atestado de pobreza.

Depois do aumento dos preços dos transportes públicos ofereceu-se um desconto a quem ganha miseravelmente mal. A única condição imposta é a de se apresentarem na fila do passe com a declaração de pobreza debaixo do braço, como quem espera na fila da sopa dos pobres. Nem a dignidade é deixada intacta.

Talvez se pensasse que salários brutos inferiores a 550 € mensais, o limite máximo para usufruir do desconto, não fossem muitos, mas as longas filas desmentem-no. Depois de renda e alimentação sobra quanto mês no fim do salário?


10 2011

Limas de Vieira de Leiria

Nos tempos em que a propriedade intelectual industrial não era guardada tão ciosamente, era comum que certas localidades se especializassem em determinados produtos. Alguém montava uma fábrica e os vizinhos imitavam o melhor que podiam. Muitas vezes a fábrica original começava com a cópia de uma máquina importada, que era desmontada e replicada peça por peça até que funcionasse. Foi assim que muitas indústrias começaram. Outras optaram por adquirir uma licença e um projecto – era mais caro, mas mais seguro.

Em Vieira de Leiria, diz-se, um ferreiro que acompanhava as tropas napoleónicas no princípio do séc. XVIII revelou o segredo de uma imbatível têmpera do aço a um português de quem se tornou amigo. Já se sabe que em Portugal todos são bem recebidos, até os inimigos. É uma história semelhante à da fórmula dos rebuçados peitorais do Dr. Bayard.

Este segredo da têmpera permitia endurecer o aço das armas em tempo de guerra e fazer limas que não se gastavam em tempo de paz. A indústria de limas nacionais de alta qualidade estava lançada.

faprilima

Muitas das pequenas fábricas de limas e ferramentas da região já fecharam. A cada vez menor procura e a concorrência de baixo custo (e por vezes de muito baixa qualidade) de outras paragens assim o ditou. As maiores resistem e diversificam os produtos. O curioso é que muitas destas se apegam à tradição, especialmente nos rótulos das caixas de limas.


10 2011

Sinais artesanais

Antes de haver empresas dedicadas à estampagem de sinais de trânsito a usar sempre os mesmos moldes, os sinais eram pintados à mão. Por vezes as Câmaras Municipais preparavam algumas dezenas dos mais comuns com um stencil para fazer face às necessidades – sinais de cedência de prioridade, sentidos proibidos e, mais recentemente, proibições de estacionamento.

Os menos comuns encomendava-se quando eram mesmo precisos e para estes não havia armazém nem moldes que valessem. Nos casos mais urgentes era um cantoneiro mais habilidoso que os desenhava. Estou certo que muitos se recordam dos sinais de obras que eram sempre diferentes porque de tanto serem usados era necessário retocar o trabalhador. Umas vezes tinha picareta, outras pá, chapéu ou até um garrafão de vinho pintado ao lado do monte de terra. Era um traço de originalidade e autenticidade.

Sinal de trânsito
Sinal artesanal

Grande parte dessas peças únicas já desapareceu. Os sinais precisam de ser substituídos de vez em quando e há agora muitas empresas capazes de satisfazer as necessidades mais exóticas.


10 2011

Necrópole de São Gens

O património arqueólógico do Concelho de Celorico da Beira não se fica pelos castelos ou antas isoladas. Há vestígios romanos e castrenses e também uma boa colecção de sepulturas antropomórficas.

Necrópole de São Gens
Necrópole de São Gens

Na freguesia de Forno Telheiro, quase à sombra de um penedo isolado de formas invulgares que se equilibra num barroco, temos a impressão de que alguém se ocupou a escavar banheiras no granito. Foi um trabalho de paciência, porque são fundas e algumas têm até um recorte para a cabeça do ocupante.

Necrópole de São Gens
Sepulturas

Dizem tratar-se de sepulturas, mas a falta de mais elementos e a própria localização um pouco errática das várias cavidades podem indicar terem feito parte de outros rituais esquecidos.

Duas coisas são certas: a primeira é a forma que sugere servirem para que alguém se lá deitasse, vivo ou morto. A segunda é que era gente de estatura comparável à da dos beirões de meados do século passado.

Provavelmente, com a excepção dos produtos importados das Américas, o regime alimentar e o tipo de trabalho no campo não seriam muito diferentes dos de há poucas décadas.


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