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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

10 2011

Quinta da Fidalga

A Agualva foi, antes da febre do betão e da conurbação com o cacém, uma pequena povoação entalada entre muitas quintas de variadas dimensões. Na sua quase totalidade foram esquartejadas para a construção dos novos bairros e nem os edifícios solarengos de cada uma sobrou para contar a história. Restaram dois ou três exemplos destas casas das quintas e um deles, curiosamente, no centro da freguesia – a Quinta da Fidalga. Foi classificado como Imóvel de Interesse Municipal.

A história da Quinta de Nossa Senhora do Monte Carmo, o nome completo da Quinta da Fidalga, remonta já ao século XVIII, conforme se pode ler na ficha de identificação do IGESPAR. Neste documento descreve-se o edifício e alguns edifícios anexos, mas é omisso acerca do brasão que se encontra sobre o portão que dá para o largo.

Quinta da Fidalga
O brasão

É um brasão cortado com quatro cabras, treze besantes e timbre com uma quimera. Desconheço se foi pintado respeitando as cores originais – porque na heráldica as cores dos elementos são importantes. Procurei nas poucas fontes de que disponho, mas não consegui identificar a família. Não me parece que seja o de José Ramos da Silva, o primeiro proprietário que fez fortuna no Brasil, e desconheço quem ocupou a quinta após a sua morte, mas isso não é importante porque, ao que parece, havia muito novo-rico a encomendar brasões para expor aos visitantes atestando a longa linhagem do dinheiro fresco.


10 2011

De bicicleta para o trabalho

Nas últimas semanas tenho aproveitado o bom tempo para ir de bicicleta para o trabalho. Já há muito que não o podia fazer e quase não me lembrava como é agradável. Uns poucos minutos de comboio e outros tantos a pedalar pela ciclovia do Campo Grande afora demoram muito menos que fazer só o campo Grande a pé.

A bicicleta pode não parecer o meio de transporte mais indicado para Lisboa, mas fora do centro há grandes avenidas quase planas. Na periferia, as ciclovias começam a fechar uma rede interessante que só é pena não ter continuação para outros concelhos.

Bicicleta abandonada
Bicicleta abandonada

As bicicletas eram bastante mais comuns há cerca de vinte anos, em especial no Ribatejo e Oeste. Depois as motorizadas ficaram mais baratas e muitos trocaram os veículos a pedal por algo mais rápido e menos cansativo. Grande parte das bicicletas acabou por enferrujar lentamente em garagens e arrecadações. Nas zonas menos habitadas, onde os amigos do alheio são menos comuns ou só se interessam por coisas vendáveis, as bicicletas foram morrendo encostadas a árvores e casas em ruínas. Foram esquecidas no dia em que a mota ou o carro novos chegaram.


10 2011

Inflação terceiro-mundista

A inflação tem duas formas de cálculo. A oficiosa é a mais usada e mede a variação de quanto mês sobra no fim do salário. Sente-se no bolso e varia de pessoa para pessoa consoante os seus hábitos de consumo.

A forma de cálculo oficial envolve um cabaz de produtos comuns aos quais se atribuíu a capacidade sobrenatural de acompanharem a variação dos preços de todos os outros ou de, pelo menos, representarem aproximamente os hábitos de consumo da maioria da população. Seguindo a evolução dos preços deste cabaz acredita-se que se consiga estimar a inflação. Este valor é depois comunicado ao público, envolto numa aura de autoridade imerecida, pois a escolha dos produtos do cabaz é tudo menos inocente. Ponderando criteriosamente o tipo e quantidades de cada produto, a inflação oficial sobe ou desce consoante as necessidades políticas, mas as inflações real e oficiosa não lhe fazem caso.

Bons exemplos destas escolhas cirúrgicas há muitos, mas o mais famoso é o das velas de estearina, que constaram do cabaz inflacionista do Reino Unido durante décadas, muito depois de já ninguém precisar de velas para iluminação. A pouca procura mantinha os preços baixos e o preço baixo das velas mantinha o cálculo da inflação abaixo do real – a não ser que se comprasse muitas velas.

Cabaz
Cabaz de Luanda

Um dos produtos com maior peso no cabaz para cálculo da inflação é o açúcar. É considerado bem essencial e entra na confecção de muitas coisas. Variações no seu preço reflectir-se-ão noutros produtos. Com esta noção em mente, podemos comparar o preço do açúcar do ano passado – antes da febre especulativa que ocorreu a poucas do Natal, com os da mesma época deste ano. É com algum espanto que notamos um aumento de uns assombrosos 40%.

Que ginástica estatística se fará para que a inflação oficial desminta a oficiosa por larga margem e demonstre que, afinal, não é terceiro-mundista?


10 2011

Ponte da Ribeira da Seda

Agora já por cá não se passa. Foi preciso cair a ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios para se fazer uma avaliação mais cuidadosa às capacidades de carga e estado de conservação das restantes pontes do país.

A ponte da Ribeira da Seda mantém-se em funções há perto de dois mil anos e só recentemente se pensou que o trânsito de pesados no seu estreito tabuleiro não lhe daria muita saúde. A primeira medida tomada foi a de criar um longo desvio para a evitar. Depois esperou-se.

Nesta parte do Alto Alentejo, com colinas baixas a servir de pano de fundo a outras colinas, construir uma estrada sem grandes desníveis ou curvas em demasia foi tarefa difícil. Para complicar mais o assunto, a Ribeira da Seda não permitia passagens a vau simples e tinha de ser atravessada com uma grande obra de arte. Os Romanos escolheram um dos vales mais bonitos da Ribeira da Seda para a construir e tanto a estrada como o curso de água descrevem curvas graciosas até à ponte.

Ponte da Ribeira da Seda
Ponte da Ribeira da Seda

Depois dos anos de espera construiu-se uma variante à ponte. Já não segue o traçado tortuoso de uma estrada feita à mão e as máquinas ajudaram a desmontar algumas vertentes. Poucos são os que fazem o desvio para ir apreciar a velha ponte romana que, mesmo com as rugas da idade, continua a ser muito mais bonita que a ponte nova.


10 2011

Cachorro abandonado

No castelo de Linhares da Beira estão a descoberto muitos vestígios dos edifícios que existiram no seu interior. A perda de importância militar significou anos de abandono que se converteram em metros de terra sobre as ruínas. Os alicerces das casas mais recentes e paredes inteiras das mais antigas surgem no terreiro à medida que se fazem escavações.

Pelo meio sobram algumas peças que perderam contexto e, só por si, não têm grande valor arqueológico, como alguns cachorros de pedra avulsos provenientes de algum edifício mais rico. Aparentemente sem saber o que fazer destas peças, alguém os plantou ao alto, como se de estacas se tratassem.

Cachorro
Cachorro perdido cheio de expressão

Um deles, coberto de líquenes e musgos cinzentos, revela uma expressão sofredora que não deixa indiferentes os visitantes. Suponho que tenha um efeito maior assim do que na sua posição original.


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