30
09
2011
Uma das invenções que mudou radicalmente o aspecto das paisagens rurais foi o arame farpado. É invento recente, com pouco mais de século e meio de história, mas revolucionou a forma de erguer vedações. Muros, cercados de madeira ou sebes, são caros e demoram tempo a construir ou a crescer. com o mesmo investimento, uma vedação de arame farpado permite cercar áreas muito maiores em menos tempo – daí a preferência dos holandeses por estas vedações mais eficientes.
Libelinha no poleiro
O seu impacto na paisagem é pequeno. Ao longe, da vedação apenas se notam os prumos ou as diferenças entre as parcelas. E, apesar de impedirem a passagem aos animais maiores, os restantes atravessam-nas com facilidade.
Tal como as andorinhas se habituaram a construir os ninhos nos beirados, também o arame farpado passou a servir outros animais que não o Homem. No final do Verão, junto de linhas de água em locais ermos que se reconhecem quase só pela vegetação um pouco mais verde, é frequente ver verdadeiros esquadrões de libelinhas pousados nas barbelas do arame farpado viradas para o vento. Ficamos indecisos se esperam por uma presa ou se apenas apreciam o dia agradável.
29
09
2011
Quando se fala no Alentejo, a maioria das pessoas dá por si a pensar nas planícies ondulantes a perder de vista ou nas searas do celeiro de Portugal dos livros escolares de outrora. Poucos se lembram imediatamente do montado ou dos campos em pousio cheios de papoilas.
Se restringirmos um pouco mais a região a Barrancos ou a Alter do Chão é certo que o porco preto e os cavalos depressa entram no discurso, mas é um pouco como dizer que no Porto se comem tripas todos os dias ou que a população de Belém se alimenta exclusivamente de pastéis de Belém.

Gado bovino de Alter do Chão
À entrada de Alter do Chão está uma excelente estátua de bronze dedicada ao cavalo lusitano, tendo como modelo «Oheide», um dos próprios cavalos da coudelaria mais famosa de Portugal. Esta é tradição antiga, já que o modelo usado para a estátua equestre de D. José no Terreiro do Paço também era daqui originário, de seu nome «Gentil». Como curiosidade, a primeira letra do nome de cada cavalo depende do seu ano de nascimento, o que permite saber a idade dos cavalos sem ter de consultar linhagens.
Alter do Chão deve a sua fama aos cavalos e orgulha-se disso, mas basta percorrer sem rumo definido as estradas secundárias e rapidamente nos apercebemos que há mais para além de cavalos. Cada curva da estrada nos abre o horizonte para explorações agrícolas e pecuárias eclipsadas pelos cavalos. De certo modo, são mais importantes estas últimas que os próprios cavalos.
28
09
2011
«Lá estás tu a fotografar bichos mortos!», torno a ouvir enquanto tento enquadrar um desgraçado animal atropelado. Se for possível, a seguir tenta-se pô-lo na berma para que não acabe como uma pasta vermelho-acastanhada no asfalto. Um gesto inútil talvez, mas que para mim representa algum respeito. O mundo moderno passa demasiado depressa pela vida selvagem.
Já me apercebi que, infelizmente, esta é uma das maneiras de avaliar as populações de animais selvagens – contar os mortos para saber dos vivos. Um terço das raposas que vi, tinham sido atropeladas. A última, foi há cerca de um ano, perto de Cinfães. Descobri recentemente a fotografia desse dia. Não me lembrava que a cena fosse tão feia. É por isso que só mostro um plano mais fechado.
Luta desigual
Não será pela última vez que oiço uma voz enojada reclamar do que tenho em frente da objectiva. Por vezes é a minha própria consciência que o pronuncia. Não o faço por curiosidade mórbida ou algo que o valha, mas sim por acreditar que nas fotografias não devem entrar apenas os momentos felizes. Todos os momentos marcantes devem constar nestas memórias artificiais, exactamente como nas nossas. Tudo faz parte da vida, até a morte – mesmo que se tente não o mostrar.
27
09
2011
Parece-me um pouco criminoso morar à vista do Palácio Nacional de Queluz e poucas vezes falar nele. Por vezes esquecemo-nos do que está perto e procuramos coisas interessantes fora de portas. Uma visita ao Domingo de manhã ainda é gratuita e só por um passeio nos jardins já valia a pena.
Foi neste palácio e no mesmo quarto que nasceu e morreu D.Pedro IV, depois de abdicar duas vezes a favor dos filhos e de ter sido Imperador do Brasil, a meio mundo de distância.
Mas isso é assunto para outras histórias. Hoje escrevo sobre um único painel de azulejos, porque há muito me apercebi que se o todo é interessante, deve-o aos pormenores.
O Corredor das Mangas, uma comprida sala cheia de janelas que une dois corpos do Palácio, está decorado com painéis de azulejos em tons de azul e amarelo. É uma decoração leve e com as janelas abertas para o jardim quase se acredita estar ao ar livre. Informam-nos na visita que datam do final do séc. XVIII e sobreviveram ao incêndio de 1934. Atribuem-nos a um conhecido ceramista da época, Francisco Jorge da Costa, mas os estilos diferentes fazem-nos acreditar que o mestre se dedicou a uns e pôs os discípulos a trabalhar noutros.
Alguns painéis apresentam um traço simples, com perspectivas distorcidas e personagens caricaturadas, mas outros são verdadeiras obras naturalistas, como o agricultor chinês da parede mais próxima da Sala dos Embaixadores.

Agricultor chinês em Queluz
Curiosamente, a Sala dos Embaixadores foi das áreas que mais sofreu com o incêndio, tendo sido reconstruída na sua quase totalidade e não custa a crer que este mesmo painel tenha sido danificado e o seu restauro lhe tenha trazido um traço mais apurado. Mesmo assim, julgo que seja original.
26
09
2011
Na época das autoestradas com áreas de serviço bem equipadas, quase custa a imaginar que o suprassumo do conforto em décadas passadas se podia resumir a um chafariz erguido à beira da estrada que utilizava a água de uma nascente local.
Um pouco de água para refrescar
Nas estradas principais de outrora, que agora não passam de caminhos secundários maltratados, ainda é frequente encontrar estes pedaços de memória. A maior parte deles foi desligada porque a imposição legal de análises regulares à qualidade da água não se coaduna com a crónica falta de orçamento para tudo o que não seja acessório.