25
09
2011
A última comédia estreada no Casino de Lisboa, «É como diz o outro», é uma desilusão. Um gasto inútil de dinheiro nos bilhetes e uma grande perda de tempo. Ponto final.
Numa versão menos resumida, a peça prometia ser engraçada, pelo menos a julgar pelo elenco – Miguel Guilherme e Bruno Nogueira, mas é pouco mais que duas personagens a trocar larachas num acto único. As larachas nem sequer têm muita graça e o Bruno Nogueira apenas consegue interpretar a personagem Bruno Nogueira. Estes são os pontos positivos.
Como pontos negativos há o texto, que tem partes parecidas com «A conversa da treta» e outras um bocadinho mais originais, e a absoluta falta de ritmo. As comédias vivem do ritmo, caramba! Ao fim de meia hora já havia gente sem posição nas cadeiras, sinal de que estavam a prestar mais atenção ao conforto do rabo que à peça. Ao fim de uma hora, mais de metade da sala se remexia e perto do fim acho que nem os actores tinham posição.
Para fechar com chave de ouro o rol de desgraças, a peça tem tanto ou tão pouco ritmo que ninguém se apercebeu de que já tinha acabado. Os aplausos só se fizeram ouvir quando os actores voltaram ao palco agradecer o silêncio.
24
09
2011
É curioso como certas pessoas têm uma cadência e timbre de discurso de tal forma característico que chegam a substituir a nossa voz interior quando lemos alguma coisa escrita por elas. Ler um artigo sobre etologia, colibris, plantas carnívoras ou qualquer outro assunto similar assinado por Sir David Attenborough é o mesmo que tê-lo confortavalmente sentado entre as nossas orelhas a narrar uma história como faz nos programas da BBC. Sem darmos por isso, ouvimos a voz pausada e algo ofegante de alguém que acabou de atravessar meia África para nos mostrar uma coisa interessante como um ovo de avestruz a eclodir.
É essa a justificação da fotografia que ilustra este artigo. Um fenómeno curioso que ganha uma aura de qualidade se for explicado com a entoação de Sir David: «Aqui, no meio da floresta, encontramos uma das maravilhas do mundo natural – uma colónia de minúsculos cogumelos brancos que sobrevivem nas fendas da casca de um pinheiro.»
No meio da floresta, uma árvore coberta de pequenos cogumelos
Julguei ser difícil encontrar outra voz tão característica até ao momento em que li um livro de Francisco Louçã. As primeiras páginas foram desconcertantes. A cada frase lida tinha a sensação de ter o próprio Louçã num canto da sala a ler em voz alta. O ritmo com que fala é exactamente o ritmo com que escreve.
23
09
2011
O fim dos pombais no centro da cidade e o seu cada vez menor número nas periferias levou a que a população de pombos assilvestrados aumentasse muito. De aves estimadas passaram a praga e ganharam o epíteto de ratos com asas. A diminuição dos espaços onde podiam pastar – porque os pombos pastam como ovelhas – fê-los alimentar-se cada vez mais de lixo.
Para conseguir controlar o seu número, a Câmara Municipal de Lisboa começou a distribuir ração com anti-concepcionais, porque os pombos se reproduzem a velocidades estonteantes – outra comparação com os ratos. O número de borrachos decresceu dramaticamente. Em muitos bairros onde os pombos são alimentados, a população está reduzida a pombos adultos.
«Quando passa o próximo comboio?»
Ao mesmo tempo, a colocação de espigões afiados em quase todas as estátuas e fachadas das zonas nobres, para evitar que os pombos lá pousem ou nidifiquem, provocou inúmeros acidentes. Raro é o pombo que não tenha pelo menos uma pata embotada em resultado de uma infecção.
Tudo isto levou a que os pombos de Lisboa pareçam cada vez mais decrépitos. Por um lado deixou de haver pombos novos, por outro lado os que sobrevivem estão velhos e doentes. Basta ir a uma praça da Baixa e ver como estão quase todos coxos e com a plumagem baça e desalinhada. Até o ritual de arrastar a asa atrás das pombas é ridículo quando feito por um pombo magro, sujo e que coxeia em cada volta.
22
09
2011
Nos últimos meses têm-se sucedido manifestações em Luanda, algumas na vaga de protestos contra regimes autoritários que varre África e Médio Oriente, e outras por razões só angolanas. A maioria tem sido pequena, com direito a mais de um polícia por manifestante.
Com a história conturbada de Angola e a tradicional política de mão pesada no que toca a opiniões dissidentes, é compreensível que apenas uma mão cheia de pessoas venha para a rua. Facto assegurado tanto por figuras do regime como críticos fervorosos.
Fui acompanhando as notícias e tentando imaginar as ruas que percorri com manifestantes e polícia. Como padrão de comparação só tinha as marchas organizadas durante as eleições de 2008 e as procissões da Páscoa ou os festejos de vitórias no futebol.
Na altura era assim
A última manifestação surpreendeu-me. As imagens tremidas que passaram na televisão eram as da rua onde morei. Algumas das pessoas que se viam à janela ou a correr pelo passeio conhecia-as de vista ou mesmo de nome. Pareceu-me mesmo ter visto o Yannick na passagem ao lado do gerador que dá para a rua onde a confusão estava instalada.
Revi mentalmente as moradas e locais de trabalho dos amigos que lá deixei, numa tentativa de perceber se algum deles poderia ser envolvido na confusão sem querer. Para já parece-me que não.
21
09
2011
Durante anos circulou o boato da explosão da fábrica precisamente ao meio-dia de uma determinada data longínqua. A data foi-se aproximando inexoravelmente e no dia certo houve uma debandada para Lisboa. Como seria de esperar, a fábrica não explodiu nem tinha razão para tal, mas a superstição tomou conta de muita gente.
Alguns anos mais tarde, na mesma semana em que se comemorava o dia de Santa Bárbara, a padroeira dos polvoristas, a fábrica explodiu mesmo e desta vez sem aviso. A versão oficial regista que se deve à produção de faíscas durante o transporte de uma máquina. As únicas testemunhas do facto morreram nesse preciso instante. O estrago foi de tal ordem que a fábrica nunca mais voltou a operar. A reconstrução das paredes não era complicada, mas a reparação e modernização das máquinas pareceu demasiado dispendiosa.
O espaço tem actualmente outras funções, entre as quais as de núcleo museológico dedicado à fábrica da pólvora e parque de lazer. A maioria das instalações sobreviventes está recuperada e há a destacar as duas centrais eléctricas e os moinhos de pólvora.
Uma longa história
Uma visita é sinónimo de passeio agradável e pelo meio até encontramos painéis de azulejos a enaltecer a longa história da fábrica.