Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11 2011

Dragão de Alfama

Parea além de árvores cheias de histórias para contar, há em Alfama muitas outras coisas para conhecer, daquelas que definem a indentidade de um bairro e das gentes que lá moram, que o distinguem dos demais.

As tascas e as casas de fado são talvez as mais conhecidas. É lá que as pessoas de fora encontram as do bairro, porque as do bairro encontram-se todos os dias nos largos, que são muito mais agradáveis.

Dragão de Alfama
Dragão de Alfama

Numa das muitas ruas cheias de escadas e curvas tão características de Alfama podemos encontrar o Dragão de Alfama, com o seu letreiro de plástico com ar de ter sido sinal de modernidade há algumas décadas. As lâmpadas vermelhas por cima da porta podem fazer crer tratar-se de um estabelecimento ligado ao ramo dos prazeres carnais, mas as fotografias dos artistas garantem que não. Tão feios e gastos, só podem ser fadistas de voz rouca e carreira longa.


11 2011

500$00 de Super, se faz favor

Diz-nos a Lei da Termodinâmica que a entropia tem apenas uma direcção de variação. A desordem e o caos crescem no universo de forma imparável, mesmo que haja tentativas mais ou menos inovadoras para os controlar.

Todos tentamos lidar com esta inevitabilidade. Secretárias desarrumadas merecem olhares reprovadores da esposa e o crescente número de sapatos de senhora que aparecem em casa dão origem a piadas de centopeias.

As arrecadações são uma curiosa invenção. Apesar de originalmente se destinarem a armazenar coisas úteis, rapidamente nos apercebemos que são uns estupendos reservatórios de entropia em excesso. É lá que se encafuam os trastes que não temos coragem para empandeirar de imediato. Resolvemos o problema da desarrumação arrumando tudo noutro sítio, longe da vista.

É óbvio que a capacidade de absorção de entropia da arrecadação tem limites e chega o dia em que perde toda a utilidade porque as tralhas estão empilhadas até à porta e mesmo o que ainda é remotamente útil está soterrado em trastes velhos, cadernos escolares que cheiram a bafio e roupa que já ninguém usa.

É chegada a altura de tomar medidas drásticas. Umas dezenas de sacos de plástico preto, um par de luvas e pouco sentimentalismo resolvem o problema. Leva algum tempo, mas a arrecadação esvazia-se de entropia à medida que o lixo sai. Pelo meio encontramos algumas pérolas que atestam bem o quão atrasada estava a limpeza.

Auto-Quitério
500 escudos de gasolina

Na última volta à arrecadação do quintal, que ainda está longe de terminada, encontrei um recibo de gasolina de um trabalho feito pelo meio pai no Concelho de Loures no que já me parece tão longínquo 1985. Foram 500$00 de gasolina Super para o 127 cor-de-tijolo.

Curiosamente, este recibo despertou-me memórias mais recentes. Lembro-me de, em Angola, ter achado anacrónico pagar o selo de cada recibo por guia, mas era o que todas as facturas e recibos diziam. Este que encontrei, velho de quase três décadas diz o mesmo.


11 2011

Resquício de ruralidade

Físicamente, a Queluz em que cresci era bastante parecida com a actual. Para além da expansão de Massamá e Monte Abraão, no centro da vila só surgiu um bairro novo – o Casal das Quintelas. Mas muitas outras coisas mudaram. Grande parte dos terrenos agrícolas, quase todos localizados em Massamá e Monte Abraão, desapareceram ou foram abandonados. A própria escola agrícola, que costumava plantar trigo junto aos muros do Palácio, fechou e a estação de ensaio de sementes mudou-se para o outro lado da EN 249.

O fim desta ruralidade às portas de Lisboa ditou também o fecho dos armazéns da Federação Nacional dos Produtores de Trigo, organização fundada no já longínquo ano de 1933. Mudou de nome em 1972 e foi extinta definitivamente em 1977. Este armazém continuou a funcionar como cooperativa, vendendo adubos, alfaias e rações.

FNPT
FNPT

Os velhos armazéns estão agora vazios. Já não cheira a rações e a milho moído quando se passa junto à porta nem vejo o caixa de óculos garrafais a atender os clientes no que parecia ser uma pequena cabine telefónica torcida.

Sem agricultores nas redondezas não fazia sentido manter as portas abertas.


11 2011

Bolotas encasacadas

Depois de um Verão que se prolongou até já todos se perguntarem quando voltaria a chuva e o frio, o temporal chegou em força, entregando toda a chuva, vento e frio que devia ter distribuído pelas últimas semanas num par de dias.

Os mesmos que resmungavam com os dias quentes e a falta de chuva andam mal-humorados e reclamam do tempo com as mãos enfiadas nos bolsos.

Bolota
Bolota encasacada

Um passeio pelo campo ou jardim em frente mostra-nos uma natureza diferente. Os choupos perdem as folhas antes de as verem mudar de cor e as árvores mais frágeis partem-se com o vento. Nas esquinas onde o vento rodopia e deixa o lixo encontram-se pequenas bolotas com casca grossa, quase como um casaco de pêlo. Será que reclamam do tempo?


31  10 2011

Cavalinho abandonado

Já é uma triste tradição abandonar animais de estimação nas férias de Verão. Cães e gatos famélicos enchem as bermas das estradas com um ar perdido. Muitos morrem atropelados, outros são recolhidos em canis enquanto esperam por uma morte não menos cruel.

Há também quem abandone vacas e burros à sua sorte, confiando que comem erva e só por isso não morrem. O que não tinha visto até agora, eram cavalinhos de olhos doces e garupa pintada de vermelho abandonados a um canto.

Cavalinho de pau
Cavalinho abandonado

Continuam com ar de quem está cheio de vontade de se balançar para trás e para diante, mas assim abandonado perde a piada toda.


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