20
10
2011
Para ficarmos com uma boa ideia da diferença de mentalidades que rege as grandes companhias de serviços de hoje e de há algumas décadas basta ver a maneira como umas usam nomes e imagens descartáveis e as outras ainda têm os nomes gravados em pedra e ferro anos depois de desaparecerem.
Agora há um mercado liberal com prestadores de serviços que usam uma rede comum em regime de time-share, seja ela de gás, electricidade ou de comunicações. É o cúmulo do regime do intermediário, em que alguém produz, outro alguém distribui e muitos outros são retalhistas do mesmo serviço. Com tanta facilidade em entrar e sair do mercado, as marcas não duram e hoje o que distingue um equipamento de uma empresa do de qualquer um dos seus concorrentes pouco mais é do que um autocolante ou, se estiver com vontade de abrir os cordões à bolsa, uma serigrafia pequenina a duas cores num painel. Altera-se a imagem da empresa à vontade do departamento de marketing com um investimento irrisório.
As empresas de outrora, especialmente as que precisaram de construir as infra-estruturas que hoje damos por garantidas, tiveram uma abordagem diferente. Partiram do princípio de que seriam eternas e deixaram a sua marca em quase tudo o que construíram. Quantas caixas da rede telefónica ainda estão identificadas como da Anglo-Portuguese Telephone (APT) ou Telefones de Lisboa e Porto (TLP)? Quantas caixas de coluna «Inviolável – CRGE» existem nos prédios de Lisboa?
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade
A maioria destas empresas acabou por mudar de nome, ser repartida em negócios mais pequenos ou especializados, fundir-se com outras ou simplesmente desaparecer. Sobraram os nomes da altura em que se julgava irem durar para sempre.
19
10
2011
Quando visitei N’Dalatando encontrei muitas marcas do que tinha sido a Angola colonial. Eram os mesmos edifícios mas com mais de três décadas de abandono e falta de manutenção, como aliás acontece no resto do país.
Nos primeiros meses de Angola sentia uma certa angústia injustificada quando via estas marcas do passado surgirem nas esquinas. Custava-me perceber como tinham chegado a este ponto de degradação.
No fundo, esquecia-me de que há coisas que se tornam de tal forma familiares, tão parte da paisagem, que deixamos de reparar nelas. Cada um se vai habituando aos edifícios no estado em que estavam na véspera e esquece-se de como estavam no mês anterior. A degradação avança lenta e inexoravelmente.
Piscina de Salazar, com água e crianças
Percebo agora que o que mais me chocava não era a excessiva degradação, mas o facto de ainda estarem de pé, com muita da sua identidade presente, mesmo que com sinais da idade. Os edifícios que escaparam às batalhas travadas rua-a-rua mantém-se de pé como se tivessem passado trinta anos fechados numa arrecadação.
Um bom exemplo disso é a piscina de N’Dalatando, cujas principais diferenças para a piscina de Salazar, que ocupa o mesmo espaço mas uma outra época, se resumem à falta de água na piscina, ao relvado seco e a algum lixo acumulado nos cantos. E claro, à palmeira que era quase um rebento há quarenta anos e agora é uma grande árvore.
Piscina de N’Dalatando, sem água mas com crianças
A alma da piscina continua lá, mesmo que as bombas já não funcionem ou que haja rachas nos pilares que suportam a elegante pala de betão. As crianças continuam por lá a brincar. A falta de água apenas transformou o rebordo da piscina em pista de carrinhos de esferas, e a armação dos baloiços transformou-se numa baliza de primeira categoria.
Bem vistas as coisas, envelheceu graciosamente.
18
10
2011
As praias de nudistas costumam ser eufemisticamente chamadas de naturistas. Não é termo disparatado de todo, porque até invoca uma certa comunhão com a natureza – no mínimo com as melgas.
Como nudismo parece se ter tornado uma palavra feia nesta época em que se deixa de chamar os bois pelos nomes, naturismo tomou o seu lugar. Muitos agora pensam que naturismo é sinónimo de nudismo, sem admitir mais significados. Ficam espantados quando encontram restaurantes naturistas e pensam que devem estar cheios de gente nua.
Nudistas, só vestidos
17
10
2011
Na escola aprendi que a letra R era a primeira de Romã. Com as letras ensinadas nas semanas anteriores conseguia escrever o nome de uma fruta que nunca tinha visto ou provado, mas diziam-me ser importante, como as zínias da letra Z, das quais também nunca me apercebi.
As romãs são dos frutos de Inverno mais famosos na arte e mitologia. A sua curiosa organização interna, com centenas de bagos delicados que se têm de retirar com cuidado de uma casca grossa e difícil de cortar.
A míriade de bagos levou a que se associasse este fruto a mitos de fertilidade e a lugares de destaque em textos sagrados das tradições judaico-cristã e árabe. Para além do mais, é um fruto bonito.
Os pintores flamengos como Eyck e Dürer tinham uma especial predilecção por romãs, não só pelo seu aspecto agradável e conotações com a ressurreição e riqueza, mas acima de tudo porque era fruta de terras mais quentes e pintar uma significava que se tinha posses para a adquirir.
Pintar uma romãs era sinal de ostentação, como hoje seria ter o pintor de um retrato chegar de Ferrari vermelho. Se pinta romãs não se discute o preço.
Na escola, colegas mais afortunados lambiam-se só de falar nelas, mas não me cheirava a que fosse coisa boa, a avaliar pela ilustração do livro, parecia-me ser uma cebola normalíssima e pouco apetitosa. Os pintores de romãs de outras épocas tinham o cuidado de as pintar sempre com um bocadinho de casca a menos, para as distinguir das vulgares cebolas que me assombraram a instrução primária.
Aliás, todos os desenhos de romãs que vi, a cores ou não, sempre me fizeram lembrar cebolas. Disparate, dirão alguns, uma cebola é uma cebola e uma romã é deliciosa – não há forma de as confundir. Resolvi tirar as teimas e fotografei as duas lado a lado.
Cebolas ou romãs
São parecidas. É preciso cuidado para não descascar a que faz chorar.
16
10
2011
No Sábado fui à manifestação. Fiz parte do número, mas comportei-me mais espectador que outra coisa. Fugi dos cortejos organizados com palavras de ordem ensaiadas gritadas ao megafone e juntei-me aos grupos de amigos com slogans espontâneos, que cantavam versos de Zeca Afonso ou discutiam política com turistas em inglês ou francês.
Cartazes
Passei grande parte do tempo a andar de costas para fotografar cartazes ou gravar o senhor que tocava o "Laurindinha" na gaita-de-foles. Apreciei a calma com que os polícias recebiam os manifestantes nos cruzamentos. Alguns até dormitavam nas carrinhas como quem goza uma sesta, embalados pelas palavras de ordem ritmadas.
Espectadores
Nas janelas da Rua de São Bento muita gente à janela a bater palmas ou só a ver passar as gentes que mais do que indignadas se sentem de mãos atadas. Pelo meio, o cão de loiça apreciava o panorama silenciosamente.
Cartazes
Só mesmo em frente à escadaria do Parlamento se conseguia ter a noção de quanta gente se manifestava. A Rua de São Bento encheu de uma ponta à outra e ainda sobravam manifestantes.