Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

25  10 2011

Compromisso entre picos e pombos

Ainda não há muito tempo se decoravam as fachadas dos prédios com esculturas. Serviam para quebrar a monotonia dos grandes volumes cheios de faces direitas, semelhantes blocos industriais austeros.

Estas esculturas devolviam uma faceta humana à construção, mas pouca atenção se dava aos pombos ou, pelo menos, tolerava-se-lhes tomarem as estátuas por poleiros.

Infelizmente, a população de pombos assilvestrados dentro das cidades cresceu de forma quase incontrolável e poucos são os que nidificam nos pombais da periferia. Agora, qualquer cornija ou saliência minimamente abrigadas serve para construir um ninho ou pernoitar.

Por outro lado, com o fim das porteiras, deixou de haver que se ocupasse da limpeza regular e cuidada dos edifícios. Hoje contrata-se quem lave as escadas de fugida uma ou duas vezes por semana e mais nada.

Escultura com picos
Mais picos escondiam a escultura

A solução encontrada por alguns é a aplicação dos espigões anti-pombo em todas as saliências passíveis de se tornarem poleiros. À distância estes espigões tornam-se invisíveis, mas há quem insista em aplicá-los quase à altura dos olhos, transformando estátuas e peitoris em ridículas camas de faquir.

Numa destas esculturas espinhosas para os lados de Entrecampos fico na dúvida se se acabaram os espigões ou se começaram a achar que proteger todas as superfícies a acabariam por tornar num ouriço. Pelo menos não puseram picos na pomba que a ninfa segura.


24  10 2011

Transplante de orgãos informáticos

Apesar de conseguir ter o Vista a funcionar há quatro anos sem necessidade de o reinstalar, o apodrecimento do sistema operativo tão característico da Microsoft faz-se sentir. O ideal era instalar uma cópia nova, mas não sinto vontade nenhuma de voltar a ter de instalar todos os programas que uso e de afinar tudo de forma a ficar a meu gosto.

Por outro lado, o computador portátil que me acompanha fielmente há mais de quatro anos, uma quase relíquia informática, não aparenta a idade que tem. Tem sido estimado e, de vez em quando tem direito a uns mimos.

No ano passado recebeu mais memória e um sistema operativo decente em alternativa ao Vista. Só não o substitui de vez porque há alguns programas que só correm em ambiente Windows.

Este ano achei que estava na altura de reformar o disco rígido antes que os problemas apareçam. Optei por um de maior capacidade e ofereci partições separadas para o Windows e Linux. Deu algum trabalho fazer a cópia do disco original e migrar cada sistema para o seu canto, mas ao fim de algumas horas tudo funciona como antes – mas com mais espaço livre e num disco novo.


23  10 2011

Piscina do Campo Grande

Ao pensar com mais cuidado acerca das piscinas de N’Dalatando e do longo período de abandono a que estiveram votadas devido às voltas estranhas que o mundo dá, descobri que esse abandono e degradação começam de forma sorrateira.

Basta ir ao Campo Grande e dar uma espreitadela às piscinas projectadas por Keil do Amaral. Funcionaram desde a década de 1960 e agora secam ao sol como a espinha de um peixe. Já passaram a fase da possibilidade de recuperação.

Piscina do Campo Grande
Abandonada

Com sorte e um pouco mais de abandono, conseguirão transformar-se num campo de futebol como o da piscina de N’Dalatando.


22  10 2011

Centum Cellas

Na pequena povoação de Colmeal da Torre, localizada a poucos quilómetros de Belmonte, ergue-se uma curiosa ruína que parece deslocada tanto no espaço como no tempo. Trata-se da torre de Centum Cellas ou de São Cornélio, devido a uma capela que lá esteve instalada e devotada a este santo que deu nome a muitos lugares nesta região.

Parece deslocada no tempo porque resistiu melhor ao tempo que as demais ruínas do complexo, fruto de sucessivos reaproveitamentos, que a tornam parecida – em termos de estado de ruína, pelo menos – com as termas das Águas Radium, abandonadas há pouco mais de duas décadas. Aparenta estar deslocada no espaço porque surge no meio de uma pequena aldeia, rodeada por vinhas, como uma peça de cenário esquecida.

Centum Cellas
A torre de Centum Cellas

Dizem os estudiosos que o arquitecto responsável pela sua construção, há perto de vinte séculos, era profundo conhecedor da obra de Vitrúvio, que sintetizou em dez livros as mais avançadas e seguras técnicas de construção da época romana. A durabilidade do edifício atesta a qualidade dos ensinamentos.

Do pouco que se sabe da história desta torre e do complexo em que se insere consta o nome provável do seu proprietário, Lucius Caecilius, negociante de estanho. Não são conjecturas totalmente descabidas, uma vez que Caecilius é remotamente parecido com Cellas e a região é conhecida pelos seus recursos minerais, entre os quais o estanho. Aliás, poucos quilómetros a norte encontram-se as ruínas de antigos fornos de estanho na freguesia de Moita do Jardim e na região do Fundão, um pouco a sul, há minas de chumbo e estanho.


21  10 2011

Pedaços isolados de passado

O abandono da agricultura e das técnicas pré-industriais transformou completamente a paisagem e a cultura. Alguns resquícios sobram aqui e ali, por vezes alimentados por carolice dos que não desejam ver a memória do que foi o seu presente num passado próximo desaparecer sem sequer um suspiro. Os ranchos folclóricos são uma das faces mais visíveis desse apego à cultura popular que foi substituída pela televisão.

As canções com que enquadram danças tradicionais são inspiradas nas que eram cantadas no trabalho dos ranchos (antes de se tornarem folclóricos) com o intuito de marcar o ritmo de trabalho e evitar o esmorecimento. Hoje parecem desligadas do mundo, sem o contexto necessário à sua completa compreensão, tal como um pedaço de cerâmica duma escavação arqueológica é incapaz de explicar toda a cultura que o gerou. Pedaços isolados serão sempre isso.

Na paisagem rural já faltam os animais. Alguns foram substituídos por tractores, mas muitos foram tiveram o mesmo destino das terras – o abandono.

Mesmo assim, aqui e ali, e geralmente nas aldeias onde os mais novos têm idade para esperarem ser bisavós em breve, vão-se encontrando os últimos burros. Quando estes ou os seus donos morreram não serão susbtituídos (nem uns nem outros).

Burro
Um dos últimos

Para serem usados como animais de trabalho já começam a ser demasiado velhos. Os burros também devem ter as queixas da idade e sonhar com o tempo em que saltavam de pedra em pedra sem depois ficarem doridos. Mas, acima de tudo, faltam agora os albardeiros que saibam fazer albardas e arreios à medida de cada animal. Foi um dos pedaços de passado que não sobreviveu, logo a começar porque ninguém ganha a vida fazendo uma albarda a cada década.


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